Quando a IA faz o trabalho da consultoria

Artigo: Paula Chimenti e André Fonseca

Com Julia Campos*

Recentemente conduzimos um exercício curioso para uma dissertação de mestrado. Queríamos discutir o futuro da consultoria em um mundo cada vez mais moldado pela inteligência artificial. Para isso, decidimos seguir parte do processo de planejamento estratégico: mapear o ecossistema da indústria e construir cenários sobre seus possíveis futuros.

[…]

Primeiro, da maneira clássica, reunindo pessoas reais. Convidamos diferentes atores do ecossistema da consultoria para discutir tendências, tecnologias emergentes e mudanças no mercado. A partir dessas conversas, construímos cenários para os próximos cinco anos da indústria.

Depois, fizemos algo diferente. Usando modelos de linguagem baseados em inteligência artificial, pedimos que o sistema analisasse textos sobre o setor de consultoria e identificasse os principais atores desse ecossistema. Em seguida, solicitamos que a própria IA criasse perfis de especialistas fictícios que representassem esses diferentes pontos de vista: executivos, consultores, clientes, especialistas. Por fim, simulamos dentro do ambiente da IA um workshop de construção de cenários, semelhante ao que havíamos feito com pessoas.

O resultado foi surpreendente.

Os cenários gerados pela inteligência artificial foram, em grande medida, muito próximos daqueles que surgiram no exercício conduzido com especialistas humanos. Em ambos os casos surgiram algumas direções possíveis para o futuro da consultoria.

[…]

É difícil prever as escolhas que faremos, mas a direção da adoção da IA já está traçada. Dito isso, ficaram claras neste processo as incertezas sobre o futuro da consultoria. É natural que seja assim: somos todos partes interessadas e, ainda que não fôssemos, o problema é altamente complexo. É possível afirmar com confiança, entretanto, que o futuro está em algum ponto de um espectro contínuo que vai dos humanos fazendo tudo para os humanos não fazendo nada. Onde nos posicionaremos nesse espectro será uma escolha da sociedade. O fato é que nossa pesquisa mostra que as IAs já conseguem elucubrar sobre cenários futuros tão bem quanto nós.

O humano prudente precisa reconhecer a hibridização que todos já vivenciamos. Por ora, a performance de um modelo híbrido ainda depende intimamente da performance do humano que atua dentro dele. Talvez, o futuro da consultoria seja exatamente este: a habilidade de extrair das IAs muito mais valor do que o próprio cliente seria capaz de extrair sozinho.

*Consultora de estratégia e gestão e é mestranda pelo COPPEAD

**Professor e coordenador do Centro de Estudos em Estratégia e Inovação do COPPEAD/UFRJ

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