O perigo do curto prazo no futebol e nas finanças

Artigo: Claudio de Moraes

O fim de ano do futebol brasileiro reacendeu o debate sobre a qualidade dos técnicos e a solidez dos seus resultados. Entre os nomes mais comentados estão Filipe Luís, do Flamengo, e Abel Ferreira, do Palmeiras. Para analisar essa discussão de forma estruturada, vale recorrer a dois conceitos estatísticos amplamente documentados na literatura financeira. O primeiro é o momentum, descrito em pesquisas clássicas como Jegadeesh e Titman, publicadas em 1993 no Journal of Finance, e posteriormente incorporado aos modelos multifatoriais de Carhart em 1997. O segundo é a regressão à média, conceito central da estatística aplicada e constantemente observado em estudos empíricos de finanças que mostram como resultados extremos tendem, com o tempo, a retornar a níveis mais típicos e sustentáveis. Em linguagem simples, números muito fora da curva tendem a ser exceção, não regra. 

Com esses dois conceitos fica mais fácil interpretar o contraste entre Filipe Luís e Abel Ferreira. Filipe Luís apresenta um desempenho recente muito acima da média. São 96 jogos, 62 vitórias e uma média de 2,17 pontos por partida. É um resultado excelente que sugere uma fase extremamente favorável. Em termos de momentum, a narrativa se encaixa perfeitamente. O time está confiante, o ambiente ajuda e a sequência positiva alimenta a continuidade do bom desempenho. A estatística mostra que essas fases acontecem justamente porque confiança, narrativa e decisões convergentes se reforçam mutuamente. Em janelas tão curtas, sorte e habilidade se misturam a ponto de uma boa sequência facilmente parecer 100% resultado do talento, mas também pode ser obra do acaso. 

Esse contraste mostra por que tantas discussões de futebol ignoram fundamentos estatísticos básicos. O torcedor costuma olhar para os últimos dez jogos, não para os últimos dez anos. Em vez de perguntar qual é a média de longo prazo, escolhe-se a janela mais conveniente para confirmar a empolgação do momento. Essa lógica emocional aparece também nos mercados financeiros, que muitas vezes operam mais como uma arquibancada ansiosa do que como uma arena de análise racional. 

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A indústria de fundos no Brasil vive um exemplo nítido desse fenômeno. Nos últimos quatro ou cinco anos, muitos fundos multimercados e fundos de ações acumularam resultados inferiores ao CDI. A maioria deles viveu pequenas janelas de alívio, gerando entusiasmo temporário, mas quando se observam janelas longas, o retorno revela um padrão de insuficiência. A narrativa se ancora nas poucas fases boas. Quando ampliamos o horizonte, fica claro que o desempenho típico é bem mais modesto do que o discurso sugere. Em algumas amostras recentes, grande parte dos fundos de gestão ativa apresenta retorno inferior ao benchmark em horizontes maiores, o que revela que, apesar de bons momentos isolados, a média estrutural não acompanha a narrativa. Exceções como o Medallion Fund, nos Estados Unidos, existem, mas são raríssimas; o erro é tratar qualquer fundo “da moda” dos últimos anos como se pertencesse a essa categoria. 

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Aqui entra a provocação central. Você ouviria com atenção as previsões macroeconômicas de economistas cujos fundos não performam de maneira consistente ou trataria essas previsões da mesma forma que trataria a empolgação com um técnico que vive apenas um ótimo início, mas que ainda não provou sua verdadeira média? 

A mesma lógica deveria orientar a escolha de fundos. Primeiro se observa o histórico consolidado. Depois se avalia a coerência estratégica. Só então se considera a fase atual. A comparação com o futebol ajuda a organizar essa reflexão. Se você fosse montar o seu time, olharia primeiro para a média de longo prazo ou para os resultados mais recentes? 

Para este fim de ano, fica uma sugestão de presente de Natal. Antes de escolher fundos com histórias encantadoras de curto prazo, vale perguntar se eles são Filipe Luís ou Abel Ferreira. O momentum empolga, mas a regressão à média quase sempre conta a verdade inteira. 

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