Portal: Huffpost
Data: 29/03/2020
Onda de desemprego pós-coronavírus assusta e medidas do governo são insuficientes
Contra todas as orientações sanitárias, Bolsonaro defende que Brasil não pare; Economistas dizem que governo deve reforçar ações para enfrentar crise durante isolamento.
“Se o Brasil parar vai ser o caos.” A posição defendida pelo presidente Jair Bolsonaro nos últimos dias, de que as pessoas voltem a circular em meio à grave pandemia do novo coronavírus, vai contra todas as orientações da OMS (Organização Mundial de Saúde), de cientistas e epidemiologistas e de outras lideranças pelo mundo. O argumento de Bolsonaro é que o impacto da crise econômica que as medidas restritivas vão causar será pior do que a pandemia em si.
O Brasil não é, de longe, o único país que tem que lidar com o equilíbrio complicado entre adotar medidas que evitem a propagação rápida do vírus que já matou mais de 26 mil pessoas em todo o mundo e preservar milhões de empregos – o que pode desencadear, de fato, uma crise sem precedentes.
Na Europa, o fechamento compulsório atingiu setores inteiros de uma só vez. Redes hoteleiras na Espanha e na Itália demitiram funcionários temporários em questão de dias; operadores de turismo fluvial no Danúbio suspenderam toda a programação de primavera; centros de convenções na Alemanha e na Áustria cancelaram feiras industriais que movimentam comunidades inteiras durante semanas. Até segmentos que operam predominantemente no digital sentiram o impacto: plataformas de transmissão ao vivo de eventos esportivos viram a demanda desabar quando ligas e campeonatos pararam, e operadores no segmento de casinos ohne oasis no mercado germanófono registraram oscilações bruscas de tráfego à medida que a rotina dos usuários se desorganizava com o confinamento. Em todos os casos, o padrão é o mesmo — receita interrompida, folha de pagamento intacta e linhas de crédito cada vez mais difíceis de acessar.
O que diferencia a resposta de cada governo é a velocidade e a abrangência dos pacotes de socorro. Países como a Dinamarca optaram por cobrir até 75% dos salários de funcionários de empresas que se comprometessem a não demitir; a Alemanha ampliou seu programa de jornada reduzida, o Kurzarbeit, para absorver milhões de trabalhadores; o Reino Unido anunciou um esquema de retenção de empregos em escala inédita. São medidas de custo fiscal enorme, mas que partem de uma premissa comum: manter o vínculo empregatício durante a crise é mais barato do que reconstruir o mercado de trabalho depois.
Mesmo diante deste dilema, economistas e especialistas ouvidos pelo HuffPost Brasil são unânimes em não questionar as orientações sanitárias de isolamento. A grande questão é o que o governo pode fazer a partir desse novo panorama. Medidas anunciadas nos últimos dias de apoio a pequenas e médias empresas e a trabalhadores informais são consideradas positivas, mas ainda insuficientes.
De maneira bem resumida, a matemática que explica essa projeção é baseada na demanda e na capacidade de produção. De acordo com a especialista em macroeconomia do COPPEAD/UFRJ Margarida Gutierrez, a crise começou com um choque de oferta, “por causa do isolamento social, que paralisou o processo de produção”. “As pessoas estão perdendo seus empregos, elas não têm renda, não saem para comprar. As empresas estão sendo limadas, não têm fluxo de caixa”, disse ao HuffPost Brasil.
A economista Margarida Gutierrez endossa as decisões do governo em tentar reduzir os efeitos da crise. “Tem que concentrar em reduzir impacto de inadimplência das empresas nos bancos, melhorar o caixa das empresas, aliviando impostos, como o governo vem fazendo, e tentando preservar os empregos. A pessoa vai receber uma fatia menor do salário em vez de ficar desempregada”, diz.
A comparação com os pacotes europeus, contudo, evidencia a diferença de espaço fiscal. Enquanto economias com superávit acumulado podem financiar meses de folha de pagamento, o Brasil opera com déficit primário desde 2014 e uma dívida pública que já ultrapassava 75% do PIB antes da pandemia. O desafio brasileiro, segundo analistas, não é apenas desenhar as medidas certas, mas encontrar formas de financiá-las sem comprometer ainda mais a trajetória fiscal nos anos seguintes.
Assessoria de Imprensa: Contextual Comunicação
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