
Por Celso Lemme
Nas conversas com profissionais de sustentabilidade e análise ESG sempre surgem as preocupações com a dificuldade de implantar estratégias e projetos de sustentabilidade nas organizações. Como ponto comum, a distância entre palavras e ações, bem como a dificuldade em convencer o C-Level da contribuição para o desempenho organizacional. Não é tarefa fácil convencer alguém a se levantar de uma poltrona habitual.
Se você já enfrentou esse desafio, não está sozinho. Ao longo das últimas décadas, diversas áreas de pesquisa indicaram que é mais fácil obter um conhecimento novo do que adotar um novo comportamento. Lembra daqueles planos de final de ano que nunca são executados?
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A geração de conhecimento que orienta mudanças segue, porém, com intensidade. Ao final de 2025, a EY Parthenon lançou o estudo “Impact Edge: ESG como alavanca de valor no agronegócio”, mostrando caminhos para um dos mais importantes setores da economia brasileira avançar na agenda ESG e melhorar o desempenho empresarial. Na área acadêmica, a revista Ecological Economics iniciou 2026 com a edição especial “Biodiversity and finance: Risk, disclosure and double materiality”, reforçando as conexões entre sustentabilidade e finanças.
Como, então, podemos reduzir o gap entre aquisição de conhecimento e mudança de comportamento? Reunindo observações de profissionais especializados, com quem pude interagir ao longo dos anos, alguns caminhos podem ser identificados, entre eles:
- Pelo lado das instituições de ensino e pesquisa, uso de linguagem adequada para comunicar ao público os resultados dos estudos, traduzindo-os para a vida das pessoas. Por exemplo, na área de mudanças climáticas é mais fácil o cidadão comum entender o risco de intensificação de desastres naturais do que o cálculo da emissão de gases de efeito-estufa;
- Para os agentes reguladores, lembrando que mudanças estruturais costumam gerar ganhadores e perdedores, propor regras que possam ser implantadas gradualmente, respeitando diferenças setoriais e de capacitação entre os agentes econômicos. Exemplos podem ser observados nos desafios de transição energética e de redução do desmatamento em áreas de agropecuária. Ninguém se anima a trocar as certezas de curto prazo pelas dúvidas de longo prazo, ainda mais se a discussão for apresentada como um filme de mocinhos e bandidos. Os perdedores resistirão fortemente às mudanças, se forem abandonados à própria sorte;
- O setor empresarial pode trazer contribuições através da autorregulação e da implantação de novos modelos de negócios. Os “clusters” empresariais ajudam a lidar com desafios de grande porte e complexidade. Esses agrupamentos compartilham recursos e conhecimentos, gerando sinergias que impulsionam a inovação e a consolidação de cadeias de valor. Essa união de empresas de diferentes setores aparece, por exemplo, no desenvolvimento e disseminação do SAF, importante nas ações contra mudanças climáticas. Já na autorregularão, um bom exemplo pode ser o acordo dos bancos para disciplinar financiamentos em áreas de desmatamento;
- Os meios de comunicaçãopodem traduzir o complexo ambiente tecnológico, regulatório e organizacional para uma linguagem acessível ao grande público. Jornalistas especializados costumam ter a habilidade de simplificar a apresentação de questões complexas. Importante perceber que demonizar certos atores dos processos sociais pode prejudicar o debate, fazendo com que esses grupos adotem posturas defensivas.
Cada um de nós tem papel fundamental nesse processo. Todos conhecem a frase “Infeliz o país que precisa de heróis”, atribuída ao escritor Bertolt Brecht. Não teremos um mundo melhor se não for esse o nosso desejo e se não forem para ele os nossos esforços.
Fácil falar ou escrever, bem mais difícil fazer. Convido você a dar a sua contribuição a essa viagem no túnel do tempo. A próxima parada será na estação “Futuro”.
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